Você já viu alguém perder tudo por causa do vício? Eu vi.
E não foi apenas uma vez.
Na minha clínica, recebo pessoas destruídas pelo vício. Famílias inteiras sofrem. Carreiras acabam. Sonhos desaparecem.
A dependência química muda tudo. Ela rouba a vida aos poucos. O cérebro se transforma. O comportamento também. “A dependência química é uma doença crônica caracterizada pela busca e uso compulsivo de substâncias, apesar das consequências negativas, com mudanças significativas na estrutura e funcionamento cerebral” (LARANJEIRA, 2014).
Vamos entender o que acontece de verdade.
Como o vício sequestra o cérebro
O cérebro adora recompensas. Comida. Sexo. Conquistas.
Drogas e álcool enganam esse sistema. E fazem isso muito bem.
Elas liberam dopamina em excesso. O prazer fica intenso demais. Natural demais.
Tive um paciente chamado Carlos. Ele dizia: “Doutora, é como se meu cérebro tivesse sido hackeado.”
Ele tinha razão.
O cérebro se adapta ao excesso de prazer. Precisa de doses maiores. As alegrias normais da vida? Perdem a graça.
Um jantar em família não compete com o prazer artificial das drogas. Um abraço não supera o álcool. O cérebro foi reprogramado.
É como trocar uma TV antiga por uma 8K. Depois, você não consegue mais assistir na TV antiga.
Os sinais silenciosos da dependência
O vício não chega anunciando. Vem devagar. Disfarçado.
Comecei a perceber padrões nos meus pacientes:
Primeiro, pequenas mudanças no sono. Depois, irritabilidade sem motivo. Logo, isolamento social.
Ana tinha 42 anos. Executiva de sucesso. Bebia “só socialmente”.
“Quando percebi que escondia garrafas no escritório, soube que algo estava errado”, me contou.
Os sinais estavam lá. Há anos.
Você conhece alguém que:
- Fica na defensiva quando mencionam seu uso?
- Cancela compromissos sem explicação?
- Mudou de amigos repentinamente?
- Tem problemas financeiros sem causa aparente?
São bandeiras vermelhas. Sinais de alerta.
O impacto no corpo não mente
O corpo fala. E grita quando está sofrendo com o vício.
Os efeitos físicos variam conforme a substância. Mas alguns são universais.
João, 35 anos, usuário de cocaína, desenvolveu problemas cardíacos graves. “É como envelhecer 20 anos em cinco”, ele disse.
Márcia abusava de álcool. Seu fígado estava falhando aos 40. “Meu corpo está me cobrando cada gole”, desabafou.
Na minha experiência clínica, vejo os órgãos sofrendo em silêncio por anos. Até que não aguentam mais.
O corpo tem limites. E o vício os ignora completamente.
Quando as relações se despedaçam
O vício é um furacao social. Destrói tudo em seu caminho.
Famílias. Amizades. Relações amorosas. Nada escapa.
A confiança quebra. A mentira vira rotina. O dinheiro some.
Roberto perdeu a guarda dos filhos por causa do crack. “Eles eram minha vida. E mesmo assim, a droga venceu”, contou entre lágrimas.
Na terapia familiar que conduzo, vejo o estrago:
- Filhos que não reconhecem mais os pais
- Casamentos de décadas destruídos em meses
- Amizades de infância dissolvidas por traições
Para quem ama um dependente, é uma montanha-russa emocional. Esperança e decepção. Promessas e recaídas.
É como amar alguém que está se afogando. E não poder salvá-lo.
O prejuízo profissional: carreiras interrompidas
No trabalho, o vício cobra seu preço. Caro demais.
Faltas frequentes. Queda na produtividade. Erros básicos.
Tive uma paciente, advogada brilhante. Perdeu processos por chegar embriagada às audiências.
“Eu era a promessa do escritório. Agora sou o exemplo do que não fazer”, disse ela.
Pesquisas mostram números alarmantes. “O abuso de substâncias custa à economia brasileira aproximadamente R$372 bilhões por ano em perda de produtividade, tratamentos de saúde e custos criminais associados” (CARLINI, 2020).
O mundo corporativo raramente perdoa. O estigma persiste. A recuperação profissional é possível. Mas o caminho é árduo.
A espiral financeira negativa
O vício esvazia bolsos. E contas bancárias inteiras.
O dinheiro vai para alimentar a dependência. Não para necessidades básicas.
Pedro, empresário, perdeu tudo para o jogo patológico. “Vendi minha casa, meu carro, pedi empréstimos. Tudo para apostar mais uma vez”, relatou.
O custo não é só direto. É também:
- Perda de emprego e renda
- Gastos médicos crescentes
- Dívidas acumuladas
- Problemas legais e suas consequências
Vi pessoas de todas as classes sociais na mesma situação. O vício não discrimina contas bancárias.
É como um buraco sem fundo. Quanto mais você joga dinheiro, mais ele pede.
O peso na saúde mental
Depressão. Ansiedade. Pânico. Paranoia.
São companheiros frequentes da dependência química.
Muitos dos meus pacientes não sabem o que veio primeiro. O transtorno mental ou o vício.
Ambos se alimentam mutuamente. Um ciclo devastador.
Luísa usava remédios para ansiedade. Sem prescrição. “Comecei tomando para me acalmar. Terminei precisando deles para funcionar”, explicou.
O cérebro em abstinência sofre. Desregula. Perde o equilíbrio químico.
É como um motor funcionando sem óleo. O desgaste é inevitável.
Os caminhos para a recuperação
Existe saída. Eu vejo isso todos os dias.
A recuperação não é linear. Tem altos e baixos. Avanços e recuos.
Mas é possível. Totalmente possível.
Fernando era dependente de álcool por 15 anos. Hoje está sóbrio há sete. “Cada dia é uma pequena vitória”, diz ele.
O tratamento eficaz geralmente inclui:
- Desintoxicação médica supervisionada
- Terapia individual e em grupo
- Abordagem familiar
- Tratamento de comorbidades psiquiátricas
- Grupos de apoio contínuo
Não existe fórmula mágica. Cada pessoa precisa de uma abordagem personalizada.
Na minha prática, vejo que a combinação de tratamentos funciona melhor. E o apoio familiar faz toda diferença.
Superando o estigma do vício
O preconceito machuca. E atrapalha a recuperação.
Profissionais da Clínica Vida Sóbria dizem que não buscam tratamento para dependência química pois muitos veem a dependência como falha moral. Como escolha. Como fraqueza.
A ciência diz o contrário. É doença. Crônica. Recorrente.
Maria escondeu seu alcoolismo por anos. “Tinha vergonha. Achava que seria julgada como fraca”, contou.
O estigma empurra as pessoas para as sombras. Para o isolamento. Longe da ajuda.
Precisamos falar mais sobre o vício. Com empatia. Com conhecimento. Sem julgamentos.
Cada história de recuperação que ganha voz ajuda outra pessoa a buscar ajuda.
Reconstruindo a vida após o vício
A sobriedade é só o começo. A reconstrução vem depois.
Relacionamentos precisam ser reparados. A confiança, reconquistada. As finanças, organizadas.
Carla estava limpa há dois anos quando me disse: “O vício destruiu minha vida em meses. Estou reconstruindo tijolo por tijolo.”
O processo é lento. Exige paciência. E autocompaixão.
Na terapia, trabalhamos muito a culpa. O remorso. Os “e se” do passado.
Aprender a perdoar a si mesmo talvez seja o passo mais difícil. E o mais necessário.
O papel fundamental do apoio contínuo
Ninguém se recupera sozinho. Ninguém.
Grupos de apoio. Família. Amigos. Profissionais de saúde.
A rede de apoio sustenta nos momentos difíceis. Celebra as vitórias. Por menores que sejam.
Paulo frequenta o AA há cinco anos. “É meu porto seguro. Onde não preciso fingir que está tudo bem”, afirma.
Na minha experiência, quem se isola tem mais chances de recair. Quem se conecta, de permanecer sóbrio.
O vício se alimenta do isolamento. A recuperação, do apoio mútuo.
O que fazer agora?
Se você luta contra o vício, dê o primeiro passo. Peça ajuda.
Se ama alguém que está nessa batalha, ofereça apoio. Sem julgamentos.
A recuperação é possível. Já vi isso acontecer muitas vezes.
O caminho não é fácil. Nem rápido. Mas vale a pena.
Cada pessoa que se liberta do vício recupera não só sua vida. Mas também seu futuro.
E você? Está pronto para dar o primeiro passo?
Referências
LARANJEIRA, Ronaldo. Dependência Química: prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2014. Diponível em: https://pergamum-biblioteca.pucpr.br/pesquisa_geral?q=Laranjeira,%20Ronaldo&for=AUTOR