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Como descobrir se um parente é dependente químico

Sinais para identificar se seu familiar sofre com dependência química e como abordar o problema com empatia, oferecendo ajuda efetiva.
Como descobrir se um parente é dependente químico

Desconfiar que um parente usa drogas gera angústia. A dúvida corrói. Queremos ajudar, mas como ter certeza?

Vivo essa situação no consultório todos os dias. Famílias confusas. Desesperadas. Sem saber como agir.

As mudanças de comportamento são o primeiro alerta. Seu parente anda mais irritado? Agressivo? Ou talvez muito quieto e isolado?

Isso aconteceu com a mãe do João, meu paciente de 25 anos. Ela notou que o filho deixou de almoçar em família. Dormia até tarde. Sumia por dias.

“No início pensei que era só uma fase”, me contou. “Mas algo estava errado.”

As alterações físicas também chamam atenção. Olhos vermelhos. Pupilas dilatadas ou contraídas demais. Perda de peso rápida. Aparência descuidada.

O uso de drogas mexe com o cérebro. E o cérebro controla tudo – do apetite ao sono, do humor às decisões. “A dependência química é uma doença cerebral crônica recidivante, caracterizada por busca e uso compulsivos de drogas, apesar das consequências nocivas” (VOLKOW, 2014).

Comportamentos que acendem o alerta vermelho

Seu familiar está sempre sem dinheiro? Pede emprestado com frequência? Objetos somem da casa?

Ana veio me procurar após notar que joias haviam desaparecido. O filho negava. Mas as evidências se acumulavam.

“Doutor, como não percebi antes?”

É uma pergunta comum no consultório. A dependência se instala aos poucos. E o dependente fica bom em esconder.

Observe os ciclos de humor. Euforia seguida de prostração. Energia excessiva e depois apatia total. Esse padrão é típico.

Um sinal quase infalível: mudança no círculo de amizades. Afastamento dos antigos amigos. Novas companhias desconhecidas. Ligações estranhas.

Na adolescência, isso pode se confundir com fases normais. Mas quando vem junto com outros sinais, acende o alerta.

Tive um paciente que trocou o time de futebol por novos “amigos”. A mãe achou estranho. Ele amava futebol desde criança. Foi o primeiro sinal.

As diferentes faces da dependência química

Nem todo dependente é igual. Cada droga causa efeitos distintos. E cada pessoa reage de forma única.

O álcool pode deixar a pessoa falante, com cheiro característico. Tropeça nas palavras. Tem lapsos de memória.

Já os estimulantes como cocaína produzem agitação. Fala rápida. Insônia. Paranoia em alguns casos.

Maconha? Olhos vermelhos. Risadas sem motivo. Fome aumentada. Desinteresse por atividades antes prazerosas.

Os opioides são mais traiçoeiros. Causam sonolência. Pupilas contraídas. Constipação. E uma sensação de bem-estar que mascara o problema.

Conheço famílias que demoraram anos para perceber. As drogas atuais são potentes. E os usuários desenvolvem tolerância. Precisam de doses cada vez maiores.

Como abordar o assunto sem piorar a situação

Descobrir é só o primeiro passo. O mais difícil vem depois: como falar sobre isso?

Evite confrontos diretos. Acusações geram defesa. E defesa gera mais negação.

“Você está usando drogas!” raramente funciona. O dependente nega. Se afasta mais.

Prefira a abordagem empática. “Estou preocupado com você. Notei algumas mudanças.”

Escolha um momento tranquilo. Jamais fale quando a pessoa estiver sob efeito de substâncias. Ou quando você estiver muito nervoso.

Minha paciente Clara usou uma estratégia eficaz com o marido. Esperou um domingo de manhã. Falou dos comportamentos específicos que notava. Sem julgamentos.

“Você tem dormido pouco. Fica irritado por qualquer coisa. Isto não é você.”

Ofereça ajuda, não críticas. “Estou aqui para o que precisar. Podemos buscar ajuda juntos.”

O papel da família no tratamento

A família faz toda diferença na recuperação. É como um porto seguro no meio da tempestade.

Pedro, 32 anos, me disse algo que nunca esqueci: “Se não fosse minha irmã, eu estaria morto. Ela acreditou em mim quando nem eu acreditava mais.”

O apoio familiar aumenta as chances de tratamento bem-sucedido. A dependência química é uma doença crônica que afeta o funcionamento cerebral, exigindo abordagem médica e psicossocial adequada (LARANJEIRA, 2016).

Mas cuidado com o outro extremo: o superprotecionismo. Cobrir dívidas, mentir para chefes, esconder evidências.

Isso se chama codependência. Ajuda a manter o ciclo vicioso.

Já atendi mães que pagavam dívidas de drogas dos filhos. Pais que mentiam para proteger. Esposas que escondiam garrafas vazias.

Não funciona. Só adia o problema. E tira a responsabilidade do dependente.

Recursos e opções de tratamento

O tratamento funciona. Esta é a boa notícia. Mas exige abordagem profissional.

Existem vários caminhos. Grupos de apoio como NA e AA. Terapia individual. Tratamento médico especializado.

Em casos graves, internação pode ser necessária. Mas não é a única opção.

Na minha experiência, o tratamento ambulatorial funciona bem para muitos casos. O dependente mantém sua rotina enquanto se trata.

O que não funciona é acreditar que “passa sozinho”. Ou que “é só força de vontade”.

Tive um paciente que tentou parar 15 vezes sozinho. Falhou em todas. Com tratamento adequado, está sóbrio há 4 anos.

Lembre que recaídas fazem parte do processo. Não significam fracasso total. São oportunidades de aprendizado.

É como aprender a andar de bicicleta. Cair algumas vezes faz parte.

Cuidando de quem cuida

Familiares de dependentes também sofrem. E também precisam de ajuda.

Grupos como Al-Anon e Nar-Anon são excelentes recursos. Reúnem pessoas que passam pelo mesmo problema.

Na terapia familiar, vejo o quanto os parentes ficam desgastados. Ansiosos. Deprimidos. Com raiva.

São sentimentos normais. Não se culpe por senti-los.

Maria cuidou do filho dependente por anos. Esqueceu de si mesma. Adoeceu.

“Percebi que não podia salvar meu filho se eu mesma estivesse afundando.”

Busque seu próprio apoio. Cuide da sua saúde mental. É como no avião: coloque sua máscara de oxigênio antes de ajudar os outros.

Passos práticos para buscar ajuda

O que fazer hoje mesmo se você suspeita que seu parente é dependente?

  1. Anote os comportamentos que te preocupam. Seja específico.
  2. Busque informações sobre a dependência química.
  3. Procure um profissional especializado para orientação.
  4. Converse com outros familiares de confiança.
  5. Prepare-se para uma conversa acolhedora, não acusatória.

Tenho visto resultados incríveis com famílias que agem rápido. Quanto antes a intervenção, melhores as chances.

Carlos trouxe o filho adolescente quando notou os primeiros sinais. Não esperou “ter certeza absoluta”. Preferia estar enganado a negligente.

Foi a decisão certa. O filho estava no início do uso. A recuperação foi mais rápida.

Mantendo a esperança

A dependência química tem tratamento. Pessoas se recuperam todos os dias na Clínica Vida Sóbria.

Na minha carreira, acompanhei centenas de histórias de sucesso. Ex-dependentes que reconstruíram suas vidas.

Se tornar dependente não foi uma escolha. Ninguém decide arruinar a própria vida. É uma combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos.

Mas buscar tratamento é uma escolha. E você pode ajudar seu parente a fazer essa escolha.

Como o pai de Lucas me disse, com lágrimas nos olhos: “Parecia impossível. Mas aqui estamos. Ele está bem. Nossa família está unida. Vale a pena lutar.”

Se você está lendo isso, provavelmente tem alguém que ama em risco. Dê o primeiro passo.

Busque ajuda. Hoje.

A jornada não será fácil. Terá altos e baixos. Mas vocês não estão sozinhos nesse caminho.

Referências

LARANJEIRA, R. et al. Consenso sobre o tratamento da dependência química. São Paulo: Editora UNIAD, 2016. Disponível em: https://www.uniad.org.br/livros-recomendados/aconselhamento-em-dependencia-quimica/

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